Publicação
A terapia fágica como tratamento alternativo da infeção bacteriana:
| Resumo: | A resistência aos antibióticos é um problema crescente de saúde pública. São cada vez mais comuns os relatos de casos ou surtos de infeções causadas por bactérias multirresistentes, muitas vezes associadas a locais de prestação de cuidados de saúde e, frequentemente, envolvendo elevada mortalidade. Isto acontece porque, devido a uma utilização incorreta e abusiva da terapia antibiótica durante décadas, as bactérias causadoras de infeções foram sofrendo mutações e adquirindo elementos genéticos que lhes conferem resistência a estas moléculas. Este problema tem sido acentuado pelo desinvestimento progressivo da indústria farmacêutica no desenvolvimento de antibióticos contra novos alvos terapêuticos, pairando a ameaça de podermos atingir uma era pós-antibióticos em que estes agentes deixam de ser eficazes no tratamento de infeções comuns. Como consequência, tem aumentado o interesse em estratégias antibacterianas alternativas aos antibióticos, não só porque estes são cada vez menos eficazes devido às resistências, mas também porque se devem utilizar estas moléculas apenas quando estritamente necessário, para que estas mantenham a sua eficácia. Uma terapia antimicrobiana alternativa que recentemente tem sido reconsiderada nos países ocidentais envolve a utilização de vírus que infetam e destroem as bactérias, os chamados bacteriófagos, ou simplesmente fagos, sendo por isso designada terapia fágica. Neste trabalho pretende-se apresentar uma visão geral da terapia fágica, da sua aplicação clínica atual e dos desafios que a sua implementação enfrenta. Apesar de só nos últimos tempos o interesse nos bacteriófagos enquanto agentes terapêuticos ter ressuscitado no ocidente, estes já são utilizados nos países de leste para tratar infeções há várias décadas, antes da introdução dos antibióticos na prática clínica. A terapia fágica foi e continua a ser especialmente utilizada na Geórgia, Polónia, Rússia e noutros países da ex-União Soviética. Inúmeros estudos e alguns ensaios clínicos realizados nestes países sugerem que esta terapêutica pode ser segura e eficaz. No entanto, durante décadas, a terapia fágica não foi sequer considerada para tratamento de infeções no mundo ocidental devido à crescente popularidade dos antibióticos. Casos recentes de sucesso no uso compassivo de bacteriófagos no tratamento de infeções graves e refratárias aos antibióticos voltaram a captar a atenção das comunidades científica e médica ocidentais para as potencialidades da terapia fágica. Assim, esta tem vindo a ser cada vez mais investigada e utilizada para tratar vários tipos de infeções, nomeadamente pulmonares, gastrointestinais, urinárias, cardíacas, osteoarticulares, da pele e tecidos moles, associadas a próteses e outros dispositivos médicos implantados e, em casos mais críticos, septicémias. Apesar do crescente interesse, a terapia fágica ainda enfrenta atualmente vários desafios que vão desde a sua situação regulamentar aos aspetos clínicos da sua utilização. O futuro da terapia fágica depende da superação destes desafios para que os bacteriófagos possam, então, ser considerados uma alternativa terapêutica viável, segura e eficaz. |
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| Autores principais: | Silva, Matilde Maria Martinho Oliveira Lopes da |
| Assunto: | Terapia fágica Bacteriófagos Bactérias Infeções Multirresistência Mestrado integrado - 2022 |
| Ano: | 2022 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório da Universidade de Lisboa |
| Resumo: | A resistência aos antibióticos é um problema crescente de saúde pública. São cada vez mais comuns os relatos de casos ou surtos de infeções causadas por bactérias multirresistentes, muitas vezes associadas a locais de prestação de cuidados de saúde e, frequentemente, envolvendo elevada mortalidade. Isto acontece porque, devido a uma utilização incorreta e abusiva da terapia antibiótica durante décadas, as bactérias causadoras de infeções foram sofrendo mutações e adquirindo elementos genéticos que lhes conferem resistência a estas moléculas. Este problema tem sido acentuado pelo desinvestimento progressivo da indústria farmacêutica no desenvolvimento de antibióticos contra novos alvos terapêuticos, pairando a ameaça de podermos atingir uma era pós-antibióticos em que estes agentes deixam de ser eficazes no tratamento de infeções comuns. Como consequência, tem aumentado o interesse em estratégias antibacterianas alternativas aos antibióticos, não só porque estes são cada vez menos eficazes devido às resistências, mas também porque se devem utilizar estas moléculas apenas quando estritamente necessário, para que estas mantenham a sua eficácia. Uma terapia antimicrobiana alternativa que recentemente tem sido reconsiderada nos países ocidentais envolve a utilização de vírus que infetam e destroem as bactérias, os chamados bacteriófagos, ou simplesmente fagos, sendo por isso designada terapia fágica. Neste trabalho pretende-se apresentar uma visão geral da terapia fágica, da sua aplicação clínica atual e dos desafios que a sua implementação enfrenta. Apesar de só nos últimos tempos o interesse nos bacteriófagos enquanto agentes terapêuticos ter ressuscitado no ocidente, estes já são utilizados nos países de leste para tratar infeções há várias décadas, antes da introdução dos antibióticos na prática clínica. A terapia fágica foi e continua a ser especialmente utilizada na Geórgia, Polónia, Rússia e noutros países da ex-União Soviética. Inúmeros estudos e alguns ensaios clínicos realizados nestes países sugerem que esta terapêutica pode ser segura e eficaz. No entanto, durante décadas, a terapia fágica não foi sequer considerada para tratamento de infeções no mundo ocidental devido à crescente popularidade dos antibióticos. Casos recentes de sucesso no uso compassivo de bacteriófagos no tratamento de infeções graves e refratárias aos antibióticos voltaram a captar a atenção das comunidades científica e médica ocidentais para as potencialidades da terapia fágica. Assim, esta tem vindo a ser cada vez mais investigada e utilizada para tratar vários tipos de infeções, nomeadamente pulmonares, gastrointestinais, urinárias, cardíacas, osteoarticulares, da pele e tecidos moles, associadas a próteses e outros dispositivos médicos implantados e, em casos mais críticos, septicémias. Apesar do crescente interesse, a terapia fágica ainda enfrenta atualmente vários desafios que vão desde a sua situação regulamentar aos aspetos clínicos da sua utilização. O futuro da terapia fágica depende da superação destes desafios para que os bacteriófagos possam, então, ser considerados uma alternativa terapêutica viável, segura e eficaz. |
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