Publicação
Efeitos da estimulação transcraniana de corrente contínua no processamento sensorial e na memória de trabalho em diferentes faixas etárias
| Resumo: | A estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) é uma técnica neuromodulatória com potencial para auxiliar no tratamento da dor crônica e outras condições clínicas. O efeito da ETCC, no entanto, está associado com a plasticidade cerebral, de modo que fatores que influenciam nesta plasticidade podem alterar os resultados obtidos com a estimulação gerando variabilidade nos resultados da técnica. A idade é um fator importante que modula a plasticidade, de modo que especificar a idade em protocolos de ETCC pode elevar a eficácia do método, possibilitando o uso mais assertivo em protocolos de pesquisa, como também em tratamentos clínicos. No primeiro estudo apresentamos uma revisão sistemática e meta-análise sobre o feito da ETCC nas medidas de dor em crianças, adolescentes e idosos, com a finalidade de compilar evidências sobre o impacto da idade na resposta à ETCC aplicada em montagens de importância no estudo da dor: córtex motor primário (M1) e córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC). Métodos: Realizamos uma revisão sistemática pesquisando os seguintes bancos de dados: PubMed, EMBASE e Science Direct usando os termos de pesquisa que foram adaptados de acordo com MeSh ou Entree: [(“Adolescent” OR “Children” OR “Elderly” ) AND (“tDCS” ) AND (“Pain” OR “Pain threshold”) AND ( “dorsolateral prefrontal cortex” OR “Motor cortex)]. Pré-selecionamos 228 artigos, 13 foram incluídos na revisão sistemática. A meta-análise incluiu 4 estudos para desfechos de nível de dor e 3 estudos pra limiar de dor, que foram classificados como baixo risco de viés. Apenas estudos com idosos foram incluídos na meta-análise. Resultados: Para desfecho de nível de dor os dados apresentaram considerável heterogeneidade (I2 = 60%), foi então aplicado um modelo de efeitos aleatórios. Um total de 96 pacientes recebeu estimulação ativa e a maioria dos estudos favorece a ETCC ativa, mostrando uma redução significativa (P = 0,002) dos níveis de dor quando comparada à sham. A diferença de média padronizada foi de -0,76 (IC 95% = -1,24, -0,28). Para desfecho de limiar de dor 88 idosos receberam ETCC ativa, mas a análise combinada dos estudos não mostrou diferença quando comparado a sham. Apenas dois estudos foram incluídos para o efeito da ETCC na dor em adolescentes. Os estudos foram divergentes em suas conclusões: um estudo com o uso de ETCC anodal sobre córtex pré-frontal relatou redução de escores de dor, enquanto o outro estudo relatou aumento da sensibilidade à dor. Conclusão: Nossos achados sugerem um efeito favorável da ETCC na redução da dor em idosos. No entanto, o número de estudos 9 incluídos foi pequeno e houve heterogeneidade de protocolos e condições clínicas da população do estudo. O segundo estudo teve como objetivo comparar os efeitos da ETCC anodal sobre o DLPFC e o M1 em adolescentes, adultas e idosas. O desfecho primário foi o limiar de dor pelo calor (HPT), enquanto os desfechos secundários foram o desempenho na tarefa de memória de trabalho (WM), dor moderada ao estímulo térmico e a tolerância ao estímulo térmico. Nossa hipótese foi que o efeito da ETCC seria de maior magnitude em adolescentes, quando a ETCC fosse realizada sobre o DLPFC. Métodos: Foram incluídas 30 mulheres saudáveis, destras, com idade entre 15 e 16 anos (adolescentes, n = 10), 30 a 40 anos (adultas, n = 10) e 60 a 70 anos (idosas, n = 10). Neste estudo cruzado e cego, as participantes receberam três sessões de intervenção: ETCC sobre o DLPFC esquerdo, ETCC sobre M1 esquerdo e estimulação simulada. O intervalo entre as sessões foi de pelo menos 7 dias e com alocação randomizada. Durante a estimulação as participantes realizaram tarefas online de WM. A intensidade e duração da estimulação ativa foi de 2 mA por 30 min. O HPT foi avaliado antes e após a estimulação. As participantes realizaram n-back, uma tarefa de avaliação de WM, durante e também após a ETCC. Para medidas de desfecho foi avaliada a variação percentual do HPT do pré para o pós ETCC e para o desempenho da WM foi avaliado pela tarefa de n-back após a estimulação. Resultados: Um modelo de Generalized Estimating Equation (GEE) revelou que a ETCC anodal sobre o DLPFC reduziu o HPT em adolescentes em 3,5%. Em adultos jovens, a ETCC anodal sobre M1, mas não sobre o DLPFC, aumentou o HPT significativamente em comparação com ETCC simulada. Nenhum efeito significativo para HPT foi encontrado no grupo de idosas. Para memória de trabalho o tempo de resposta para acertos foi reduzido para ETCC anodal sobre o DLPFC em adolescentes, em comparação com os outros dois grupos. Conclusão: Esses achados sugerem que a ETCC anodal modula a percepção da dor e as funções cognitivas de forma diferenciada de acordo com a idade e a área de estimulação, com maiores efeitos em adolescentes alcançados via ETCC sobre o DLPFC. A partir dos estudos realizados concluímos que a ETCC modula sensibilidade à dor de maneira distinta para adolescentes, adultos e idosos. No entanto, também a montagem de ETCC apresenta interação com o fator idade para os resultados da estimulação. Na literatura, no entanto há poucos estudos que abordam o uso da ETCC em medidas de dor para crianças, adolescentes ou idosos. Assim, estudos com rigor 10 metodológico devem ser buscados nestas faixas etárias para melhor elucidar o efeito da ETCC no nível de dor e possível impacto no ambiente clínico. |
|---|---|
| Autores principais: | Saldanha, Júlia Schirmer |
| Assunto: | Limiar da dor Memória de curto prazo Idade Plasticidade neuronal Limiar sensorial Estimulação transcraniana por corrente contínua Transcranial direct current stimulation tDCS Heat pain threshold Working memory Age Adolescents Elderly Young adults Quantitative sensory testing |
| Ano: | 2020 |
| País: | Brasil |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | IBICT |
| Idioma: | português |
| Origem: | Oasisbr |
| Resumo: | A estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) é uma técnica neuromodulatória com potencial para auxiliar no tratamento da dor crônica e outras condições clínicas. O efeito da ETCC, no entanto, está associado com a plasticidade cerebral, de modo que fatores que influenciam nesta plasticidade podem alterar os resultados obtidos com a estimulação gerando variabilidade nos resultados da técnica. A idade é um fator importante que modula a plasticidade, de modo que especificar a idade em protocolos de ETCC pode elevar a eficácia do método, possibilitando o uso mais assertivo em protocolos de pesquisa, como também em tratamentos clínicos. No primeiro estudo apresentamos uma revisão sistemática e meta-análise sobre o feito da ETCC nas medidas de dor em crianças, adolescentes e idosos, com a finalidade de compilar evidências sobre o impacto da idade na resposta à ETCC aplicada em montagens de importância no estudo da dor: córtex motor primário (M1) e córtex pré-frontal dorsolateral (DLPFC). Métodos: Realizamos uma revisão sistemática pesquisando os seguintes bancos de dados: PubMed, EMBASE e Science Direct usando os termos de pesquisa que foram adaptados de acordo com MeSh ou Entree: [(“Adolescent” OR “Children” OR “Elderly” ) AND (“tDCS” ) AND (“Pain” OR “Pain threshold”) AND ( “dorsolateral prefrontal cortex” OR “Motor cortex)]. Pré-selecionamos 228 artigos, 13 foram incluídos na revisão sistemática. A meta-análise incluiu 4 estudos para desfechos de nível de dor e 3 estudos pra limiar de dor, que foram classificados como baixo risco de viés. Apenas estudos com idosos foram incluídos na meta-análise. Resultados: Para desfecho de nível de dor os dados apresentaram considerável heterogeneidade (I2 = 60%), foi então aplicado um modelo de efeitos aleatórios. Um total de 96 pacientes recebeu estimulação ativa e a maioria dos estudos favorece a ETCC ativa, mostrando uma redução significativa (P = 0,002) dos níveis de dor quando comparada à sham. A diferença de média padronizada foi de -0,76 (IC 95% = -1,24, -0,28). Para desfecho de limiar de dor 88 idosos receberam ETCC ativa, mas a análise combinada dos estudos não mostrou diferença quando comparado a sham. Apenas dois estudos foram incluídos para o efeito da ETCC na dor em adolescentes. Os estudos foram divergentes em suas conclusões: um estudo com o uso de ETCC anodal sobre córtex pré-frontal relatou redução de escores de dor, enquanto o outro estudo relatou aumento da sensibilidade à dor. Conclusão: Nossos achados sugerem um efeito favorável da ETCC na redução da dor em idosos. No entanto, o número de estudos 9 incluídos foi pequeno e houve heterogeneidade de protocolos e condições clínicas da população do estudo. O segundo estudo teve como objetivo comparar os efeitos da ETCC anodal sobre o DLPFC e o M1 em adolescentes, adultas e idosas. O desfecho primário foi o limiar de dor pelo calor (HPT), enquanto os desfechos secundários foram o desempenho na tarefa de memória de trabalho (WM), dor moderada ao estímulo térmico e a tolerância ao estímulo térmico. Nossa hipótese foi que o efeito da ETCC seria de maior magnitude em adolescentes, quando a ETCC fosse realizada sobre o DLPFC. Métodos: Foram incluídas 30 mulheres saudáveis, destras, com idade entre 15 e 16 anos (adolescentes, n = 10), 30 a 40 anos (adultas, n = 10) e 60 a 70 anos (idosas, n = 10). Neste estudo cruzado e cego, as participantes receberam três sessões de intervenção: ETCC sobre o DLPFC esquerdo, ETCC sobre M1 esquerdo e estimulação simulada. O intervalo entre as sessões foi de pelo menos 7 dias e com alocação randomizada. Durante a estimulação as participantes realizaram tarefas online de WM. A intensidade e duração da estimulação ativa foi de 2 mA por 30 min. O HPT foi avaliado antes e após a estimulação. As participantes realizaram n-back, uma tarefa de avaliação de WM, durante e também após a ETCC. Para medidas de desfecho foi avaliada a variação percentual do HPT do pré para o pós ETCC e para o desempenho da WM foi avaliado pela tarefa de n-back após a estimulação. Resultados: Um modelo de Generalized Estimating Equation (GEE) revelou que a ETCC anodal sobre o DLPFC reduziu o HPT em adolescentes em 3,5%. Em adultos jovens, a ETCC anodal sobre M1, mas não sobre o DLPFC, aumentou o HPT significativamente em comparação com ETCC simulada. Nenhum efeito significativo para HPT foi encontrado no grupo de idosas. Para memória de trabalho o tempo de resposta para acertos foi reduzido para ETCC anodal sobre o DLPFC em adolescentes, em comparação com os outros dois grupos. Conclusão: Esses achados sugerem que a ETCC anodal modula a percepção da dor e as funções cognitivas de forma diferenciada de acordo com a idade e a área de estimulação, com maiores efeitos em adolescentes alcançados via ETCC sobre o DLPFC. A partir dos estudos realizados concluímos que a ETCC modula sensibilidade à dor de maneira distinta para adolescentes, adultos e idosos. No entanto, também a montagem de ETCC apresenta interação com o fator idade para os resultados da estimulação. Na literatura, no entanto há poucos estudos que abordam o uso da ETCC em medidas de dor para crianças, adolescentes ou idosos. Assim, estudos com rigor 10 metodológico devem ser buscados nestas faixas etárias para melhor elucidar o efeito da ETCC no nível de dor e possível impacto no ambiente clínico. |
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