Publicação
Séneca em cena : enquadramento na tradição dramática greco-latina
| Resumo: | Visto que não conhecemos qualquer depoimento histórico e irrefutável sobre o modo como as peças de Séneca efectivamente chegaram ao público da tempo do dramaturgo e sobre quem seria esse público, e visto que os argumentos contextuais, como se verificou na parte I, se revelam vulneráveis e ambíguos, esta dissertação procura estabelecer continuidade entre as práticas literárias e dramatúrgicas anteriores a Séneca e as que podemos inferir a partir do texto do autor, de modo a avaliarmos a representabilidade do drama senequiano. Estabelecidos, na parte I, alguns pressupostos relativos à autenticidade e à cronologia, a parte II conclui que, embora possamos encontrar no drama senequiano longos diálogos, monólogos e descrições que perturbam a aristotélica unidade orgânica do todo, as longas mirror scenes, como notou Taplin, eram relativamente frequentes no drama grego, e as longas descrições resultavam da influência da épica. Como a Aeneis de Virgílio, contudo, demonstra, a interferência era mútua. Séneca lança o público in medios affectus das suas personagens: é por isso que elas parecem estranhas (cf. Verfremdung de Brecht). Mas a origem humana da doença também era explicada por Fedra no Hippolytus de Eurípides. As personagens senequianas devem muito aos dramaturgos republicanos, a Virgílio e Ovídio, ao direito e à sociedade romanos, e à retórica. Mas a épica, o direito, a sociedade e a retórica influenciaram também o drama grego e isabelino, e não obstaram à representabilidade desse drama ou à profunda caracterização psicológica das personagens. A parte IV centra-se na identidade e na função dos coros. Não existem embólima na tragédia senequiana e os coros genericamente obedecem aos preceitos horacianos sobre a moral e sobre a interacção com as personagens. às vezes, contudo, Horácio é o ponto de partida para Séneca expor a sua própria filosofia. Considerando, por fim, um possível uso de máscaras, a obediência à regra horaciana dos três actores, os movimentos das personagens entre o palco e o extracénico, alguns precedentes da violência senequiana, uma solução dramatúrgica para a cena do extispicium do Oedipus, as diferentes localizações das Troades, o número de membros do coros senequianos e a sua presença ou ausência do palco, a última parte sugere, como hipótese mais provável, que Séneca escreveu as suas peças para serem representadas em privado e num palco de tipo republicano. |
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| Autores principais: | Ferreira, Paulo Sérgio Margarido |
| Assunto: | Literatura Latina Estudos Clássicos |
| Ano: | 2007 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | tese de doutoramento |
| Tipo de acesso: | acesso embargado |
| Instituição associada: | Universidade de Coimbra |
| Idioma: | português |
| Origem: | Estudo Geral - Universidade de Coimbra |
| Resumo: | Visto que não conhecemos qualquer depoimento histórico e irrefutável sobre o modo como as peças de Séneca efectivamente chegaram ao público da tempo do dramaturgo e sobre quem seria esse público, e visto que os argumentos contextuais, como se verificou na parte I, se revelam vulneráveis e ambíguos, esta dissertação procura estabelecer continuidade entre as práticas literárias e dramatúrgicas anteriores a Séneca e as que podemos inferir a partir do texto do autor, de modo a avaliarmos a representabilidade do drama senequiano. Estabelecidos, na parte I, alguns pressupostos relativos à autenticidade e à cronologia, a parte II conclui que, embora possamos encontrar no drama senequiano longos diálogos, monólogos e descrições que perturbam a aristotélica unidade orgânica do todo, as longas mirror scenes, como notou Taplin, eram relativamente frequentes no drama grego, e as longas descrições resultavam da influência da épica. Como a Aeneis de Virgílio, contudo, demonstra, a interferência era mútua. Séneca lança o público in medios affectus das suas personagens: é por isso que elas parecem estranhas (cf. Verfremdung de Brecht). Mas a origem humana da doença também era explicada por Fedra no Hippolytus de Eurípides. As personagens senequianas devem muito aos dramaturgos republicanos, a Virgílio e Ovídio, ao direito e à sociedade romanos, e à retórica. Mas a épica, o direito, a sociedade e a retórica influenciaram também o drama grego e isabelino, e não obstaram à representabilidade desse drama ou à profunda caracterização psicológica das personagens. A parte IV centra-se na identidade e na função dos coros. Não existem embólima na tragédia senequiana e os coros genericamente obedecem aos preceitos horacianos sobre a moral e sobre a interacção com as personagens. às vezes, contudo, Horácio é o ponto de partida para Séneca expor a sua própria filosofia. Considerando, por fim, um possível uso de máscaras, a obediência à regra horaciana dos três actores, os movimentos das personagens entre o palco e o extracénico, alguns precedentes da violência senequiana, uma solução dramatúrgica para a cena do extispicium do Oedipus, as diferentes localizações das Troades, o número de membros do coros senequianos e a sua presença ou ausência do palco, a última parte sugere, como hipótese mais provável, que Séneca escreveu as suas peças para serem representadas em privado e num palco de tipo republicano. |
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