Publicação
A invenção do triunfo: memória, saberes e sensibilidades nas entradas régias portuguesas (séculos XVI e XVII)
| Resumo: | Durante os séculos XVI e XVII, as cidades portuguesas recebiam os seus reis com grandes festas públicas. Os oficiais do município aguardavam pelo soberano frente às portas da cidade, onde lhe entregavam as suas chaves, demonstrando lealdade e obediência. O visitante era depois acompanhado até à Sé, onde era recebido pelo clero local antes de se dirigir à sua residência. Nas ruas por onde o rei passava, as corporações locais financiavam invenções que foram evoluindo ao longo do tempo – desde os quadros-vivos herdados da Idade Média até aos arcos triunfais de inspiração humanista. Através de uma análise de longa duração – desde a entrada de Leonor de Áustria em Lisboa, em 1521, até à de Maria Sofia de Neuburgo, em 1687 – problematizámos estas cerimónias em três frentes: como lugares de reprodução e criação de memória, como manifestações que exigiam uma combinação de saberes e como acontecimentos que eram pensados, descritos e vividos através de uma miríade de sensibilidades. Como rituais que legitimados pela repetição dos programas de ocasiões anteriores, as entradas estavam vinculadas a precedentes que se procuravam recriar através da consulta de regulamentos e deliberações protocolares, mas também de uma vasta quantidade de testemunhos escritos. Apesar de tudo, eram cerimónias mais flexíveis do que outros grandes actos públicos, como os que mediavam o acesso ao trono. Os preceitos da encenação do poder vão-se alterando ao longo do tempo, com a Coroa e os seus oficiais a ofuscar gradualmente o lugar privilegiado que a Cidade ocupava. Ainda assim, os significados dos gestos e dos ritos não se altera, e é na manipulação do seu ordenamento e enquadramento que se produziam os diferentes sentidos. A memória também informava um conjunto de expectativas estéticas que se expressavam no aparato festivo. Aqui, o precedente protocolar era complementado pelo domínio do legado cavaleiresco, bíblico, clássico e dinástico. Através do uso de iconografia e narrativas destes repertórios, as corporações desenhavam uma retórica laudatória que também reflectia as suas aspirações e ansiedades. As entradas de Filipe II e Filipe III os expoentes desta linguagem reivindicativa, que era mais branda nos recebimentos das consortes dos reis Avis e Bragança. Pela mão de arquitectos, pintores e escultores, mas também de dramaturgos, pirotécnicos e mestres de dança, criavam-se mensagens políticas informados pelos antiquários, genealogistas e letrados. O discurso não era perceptível para a maioria da audiência, que era aplacada pela magnificência das demonstrações festivas. Apesar de se usarem vários elementos facilmente reconhecíveis na iconografia, o registo erudito e hermético afastaria grande parte do público. Por outro lado, os relatos que nos chegam descrevem detalhadamente os elementos discursivos, participando num esforço de difusão do modelo político exposto e da grandeza dos protagonistas que eram, frequentemente, os protectores dos autores. Com a excepção de alguns textos subversivos, ou que encenavam ou assumiam diferentes perspectivas, só conseguimos aceder a estes acontecimentos através de olhares letrados e comprometidas com os poderes. |
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| Autores principais: | Godinho, André Filipe Claro |
| Assunto: | Portugal festa Entradas régias Cultura visual Cultura política Entradas régias Festival Visual culture Political culture Royal entries |
| Ano: | 2020 |
| País: | Portugal |
| Tipo de documento: | dissertação de mestrado |
| Tipo de acesso: | acesso aberto |
| Instituição associada: | Universidade Nova de Lisboa |
| Idioma: | português |
| Origem: | Repositório Institucional da UNL |
| Resumo: | Durante os séculos XVI e XVII, as cidades portuguesas recebiam os seus reis com grandes festas públicas. Os oficiais do município aguardavam pelo soberano frente às portas da cidade, onde lhe entregavam as suas chaves, demonstrando lealdade e obediência. O visitante era depois acompanhado até à Sé, onde era recebido pelo clero local antes de se dirigir à sua residência. Nas ruas por onde o rei passava, as corporações locais financiavam invenções que foram evoluindo ao longo do tempo – desde os quadros-vivos herdados da Idade Média até aos arcos triunfais de inspiração humanista. Através de uma análise de longa duração – desde a entrada de Leonor de Áustria em Lisboa, em 1521, até à de Maria Sofia de Neuburgo, em 1687 – problematizámos estas cerimónias em três frentes: como lugares de reprodução e criação de memória, como manifestações que exigiam uma combinação de saberes e como acontecimentos que eram pensados, descritos e vividos através de uma miríade de sensibilidades. Como rituais que legitimados pela repetição dos programas de ocasiões anteriores, as entradas estavam vinculadas a precedentes que se procuravam recriar através da consulta de regulamentos e deliberações protocolares, mas também de uma vasta quantidade de testemunhos escritos. Apesar de tudo, eram cerimónias mais flexíveis do que outros grandes actos públicos, como os que mediavam o acesso ao trono. Os preceitos da encenação do poder vão-se alterando ao longo do tempo, com a Coroa e os seus oficiais a ofuscar gradualmente o lugar privilegiado que a Cidade ocupava. Ainda assim, os significados dos gestos e dos ritos não se altera, e é na manipulação do seu ordenamento e enquadramento que se produziam os diferentes sentidos. A memória também informava um conjunto de expectativas estéticas que se expressavam no aparato festivo. Aqui, o precedente protocolar era complementado pelo domínio do legado cavaleiresco, bíblico, clássico e dinástico. Através do uso de iconografia e narrativas destes repertórios, as corporações desenhavam uma retórica laudatória que também reflectia as suas aspirações e ansiedades. As entradas de Filipe II e Filipe III os expoentes desta linguagem reivindicativa, que era mais branda nos recebimentos das consortes dos reis Avis e Bragança. Pela mão de arquitectos, pintores e escultores, mas também de dramaturgos, pirotécnicos e mestres de dança, criavam-se mensagens políticas informados pelos antiquários, genealogistas e letrados. O discurso não era perceptível para a maioria da audiência, que era aplacada pela magnificência das demonstrações festivas. Apesar de se usarem vários elementos facilmente reconhecíveis na iconografia, o registo erudito e hermético afastaria grande parte do público. Por outro lado, os relatos que nos chegam descrevem detalhadamente os elementos discursivos, participando num esforço de difusão do modelo político exposto e da grandeza dos protagonistas que eram, frequentemente, os protectores dos autores. Com a excepção de alguns textos subversivos, ou que encenavam ou assumiam diferentes perspectivas, só conseguimos aceder a estes acontecimentos através de olhares letrados e comprometidas com os poderes. |
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