Desde a antiguidade o homem sofre com envenenamentos causados por animais peçonhentos, os quais são um grave problema de saúde pública devida sua ocorrência, gravidade e sequelas. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde são notificados por ano 420 mil acidentes com serpentes peçonhentas, dentre os quais 20 mil resultam em óbito. Porém, devido à subnotificação, estima-se que mais de 2,5 milhões de acidentes e 100 mil mortes ocorram todos os anos. Os locais de maior incidência desses acidentes são regiões tropicais e subtropicais, países em desenvolvimento, áreas rurais e regiões pobres. No Brasil, o gênero Bothrops é responsável por 74% dos acidentes ofídicos, e tais acidentes são caracterizados por efeitos sistêmicos (hemorragia, distúrbios de coagulação, insuficiência renal e cardíaca) e locais (dor, edema, sangramento, dermonecrose e mionecrose). O tratamento preconizado pelo Ministério da Saúde é a administração endovenosa de soro antiofídico (soroterapia). Apesar de a soroterapia reverter com eficácia os efeitos sistêmicos do veneno no organismo da vítima, conseguindo evitar por muitas vezes o óbito, ela apresenta algumas desvantagens, como: efeitos colaterais e a ineficiência no combate aos efeitos locais do veneno, com isso, não impede o desenvolvimento de sequelas no membro atingindo. Nesse contexto, são necessárias terapias mais específicas e eficientes. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar as propriedades antiofídicas de extratos aquosos de folha, caule e fruto, moléculas isoladas e extratos do fruto coletados em diferentes meses do ano da planta Clusia fluminensis (designados de bioprodutos - capítulo I) e de compostos triazólicos derivados de síntese orgânica (capítulo II) contra alguns efeitos tóxicos do veneno das serpentes Bothrops jararaca e B. jararacussu. Os extratos, as moléculas ou compostos triazólicos foram incubados durante 30 minutos a 25°C (protocolo de incubação) com cada um dos venenos, e em seguida as atividades in vitro (coagulação, proteolítica e hemolítica) e in vivo (hemorrágica, edema, letal e miotoxidade) foram realizadas. Além disso, o veneno de B. jararaca ou B. jararacussu foi injetado nos animais, e em seguida os bioprodutos foram dados por via oral, intravenosa ou tópica, e as atividades hemorrágica e letal foram realizadas, sendo este procedimento chamado de protocolo de tratamento. Os resultados mostraram que os bioprodutos e compostos triazólicos inibiram as atividades dos venenos de B. jararaca e B. jararacussu, mas com diferentes potências, nos protocolos de incubação e tratamento. Estes resultados sugerem que os extratos, as moléculas da C. fluminensis e compostos triazólicos podem ser eficazes contra os principais efeitos tóxicos dos venenos de B. jararaca e B. jararacussu, proporcionando assim uma ferramenta promissora para o tratamento dos acidentes provocados por tais serpentes.
Os acidentes ofídicos representam um grave problema à sociedade devido a alta taxa de mortalidade e morbidade, e de acordo com a Organização Mundial da Saúde, os acidentes ofídicos são considerados doenças negligenciadas. Os acidentes provocam diversos efeitos locais (dor, edema, mionecrose, inflamação), efeitos sistêmicos (neurotoxicidade, alterações dos sistemas cardiovascular e hemostático, hemorragia), e óbito. O tratamento recomendado pelo Ministério da Saúde é a administração do soro heterólogo (antiveneno), que previne eficazmente o óbito, mas tem desvantagens: alto custo de produção e distribuição, reações alérgicas (febre e choque anafilático) e, principalmente, pouca eficácia na neutralização da lesão tecidual, que pode levar a amputação e/ou deformidade do membro acometido pela picada. Por isso, a busca por tratamentos alternativos e/ou complementares é de extrema importância. Na literatura existem vários trabalhos relatando o uso de plantas como antiveneno, contudo poucos trabalhos relatam a ação de compostos obtidos por síntese orgânica. Sendo assim, objetivo desta dissertação foi avaliar a capacidade de seis compostos sintéticos derivados de triazol (designados de DP01, DP02, DP03, DP04, DP05 e DP06) na inibição das atividades proteolítica, coagulante sobre o plasma e hemolítica causadas pelos venenos de Bothrops jararaca e B. neuwiedi, que são as principais espécies causadoras de envenenamento no Brasil. De uma forma geral, os seis derivados não foram tóxicos na plataforma “OSIRIS Property Explorer”. Os derivados DP02, DP03, DP05 e DP06 inibiram a atividade coagulante do veneno de B. jararaca e DP03, DP04 e DP06 do veneno de B. neuwiedi. Os derivados DP03, DP04 e DP05 inibiram a atividade proteolítica (de 20 a 90%) causada por ambos os venenos. E, todos os derivados inibiram a atividade hemolítica dos dois venenos, sendo que os derivados DP02 e DP05 inibiram cerca de 80% o veneno de B. jararaca e o derivado DP02 cerca de 70% o veneno de B. neuwiedi. Desta forma, os derivados inibiram todas as atividades toxicas avaliadas do veneno de B. jararaca e B. neuwiedi de maneira distinta, provavelmente pela diferença na composição protéica e variações interespecíficas destes venenos, mostrando que cada derivado tem um potencial antiveneno, e que a formulação de um coquetel seja mais promissor na inibição completa das atividades tóxicas de venenos de serpentes para uso complementar à soroterapia.
Os anticoagulantes orais são medicamentos utilizados com frequência na terapia de pacientes que tenham sofrido algum processo trombótico, visando evitar a ocorrência de novos eventos, assim como na prevenção do desenvolvimento do primeiro evento trombótico em casos de maior susceptibilidade. Embora a terapia anticoagulante oral seja uma opção terapêutica muito utilizada e eficaz, esses medicamentos são considerados potencialmente perigosos estando associado a erros de medicação graves e eventos adversos bastante significativos. A varfarina é um anticoagulante oral que tem sua eficácia terapêutica bem estabelecida na prática clínica e baixo custo. Apesar de sua eficácia, a varfarina é um dos fármacos que possui numerosas interações medicamentosas e alimentares, o seu efeito terapêutico exacerbado é responsável por levar a quadros hemorrágicos, graves ou fatais, assim como uma anticoagulação insuficiente pode levar a um evento trombótico. A monitorização do uso da varfarina, bem como a identificação dos sinais clínicos, e uma sobredose terapêutica é fundamental para reduzir o risco de eventos adversos, com objetivo garantir a segurança do paciente. Os Anticoagulantes orais diretos (DOACs) trazem boas características como, uma janela terapêutica ampla, início de ação rápido, atuação em fatores específicos da cascata da coagulação, parâmetros farmacocinéticos e farmacodinâmicos previsíveis, meia vida curta diminuindo a necessidade de monitorização frequente e do uso de antídotos específicos. Entretanto, o custo desses medicamentos atualmente é alto. Os DOACs compreendem duas classes, os inibidores direto do fator Xa, sendo os representantes a rivaroxabana, apixabana e o edoxaban e a classe dos inibidores da trombina (IIa) representado pela dabigatrano
As intoxicações são uma emergência médica relativamente frequente em todo o mundo. Em idade pediátrica assumem relevância as intoxicações acidentais em crianças e intencionais em adolescentes. A abordagem da criança vítima de intoxicação assemelha-se à do adulto e passa por i) reanimação e estabilização inicial, ii) caracterizar a intoxicação (tipo, dose e via de administração), iii) descontaminação e eliminação do tóxico, iv) administração de um antídoto, se existente e indicado.